
Nesta terça-feira (21), o episcopado brasileiro deu continuidade a mais um dia da 62ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. A pauta levada a debate e a reflexão para os Bispos foram as políticas de proteção e cuidado de menores e vulneráveis nos espaços eclesiais. Em mais um dia de atividades foi assinado o Protocolo de Intenções entre a Pontifícia Comissão de Tutela de Menores, a CNBB e a Conferência dos Religiosos do Brasil.
O documento foi assinado pelo presidente da Pontifícia Comissão de Tutela de Menores, dom Thibault Verny; o presidente da CNBB, dom Jaime Spengler; e a presidente da CRB, irmã Maria do Disterro Rocha Santos; com o objetivo de promover iniciativas conjuntas entre as instituições para o cuidado de menores e pessoas vulneráveis. O documento reconhece que promover ambientes seguros faz parte da missão evangelizadora e do cuidado pastoral da Igreja, por isso, defende a necessidade de construir uma cultura de prevenção, proteção e cuidados.
Pelo protocolo assinado, que está organizado em sete cláusulas, as conferências e a Pontifícia Comissão firmam o compromisso conjunto de, entre outras coisas, promover e fortalecer processos permanentes de informação pastoral, teológica e institucional nas diversas instâncias da Igreja; incentivar a cooperação entre dioceses, institutos, sociedades e organismos eclesiais, favorecendo a comunhão e a responsabilidade na missão; implementar boas práticas institucionais e pastorais que contribuam para o ambiente de relações saudáveis e promoção da cultura do cuidado da Igreja; e colaborar na promoção de ações preventivas e formativas de proteção de menores e pessoas vulneráveis em consonância com as orientações da Igreja.
Apresentação da Pontifícia Comissão
Antes da assinatura do protocolo, representantes da Pontifícia Comissão para a Tutela de Menores da Santa Sé falaram aos bispos sobre a política de proteção e cuidado nos espaços eclesiais. A Comissão, criada em 2014 pelo Papa Francisco, tem o objetivo de acompanhar dioceses, organismos e instituições eclesiais de todo mundo e propor iniciativas ao Papa de proteção de menores.
O presidente da Pontifícia Comissão, dom Thibault Verny, destacou aos bispos que tratar o assunto exige humildade e fraternidade. “Humildade pois não estamos aqui para dar lições com ar de superioridade sobre a prevenção e a situação de abuso. Devemos fazer o melhor possível, porque o assunto é crucial. Fraternidade porque desejamos caminhar com vocês, ombro a ombro, e ouvi-los”, falou o presidente da comissão.
Segundo ele, um dos principais obstáculos nessa luta é considerar-se perfeito. Reconhecer a verdade nem sempre é fácil, mas é o primeiro passo para se colocar no caminho. “Quando a Igreja realiza o trabalho com a verdade em auxílio às vítimas, anuncia a Boa Nova”.
Reforçando que a prevenção e cuidado com as pessoas vulneráveis é papel de todos, o presidente colocou a Pontifícia Comissão à disposição dos bispos, afirmando que a Igreja do Brasil tem papel profético nesse tema.
Memória do Papa Francisco
Na assinatura do protocolo, o secretário geral da CNBB, dom Ricardo Hoeppers, recordou o ano de falecimento do Papa Francisco, que tanto trabalhou pela defesa dos mais vulneráveis. “Fazendo memória ao Papa Francisco e ao assinarmos o protocolo, que possamos firmar a esperança que deixou no coração de sermos Igreja para todos, todos, todos”.
Coletiva de imprensa

Estiveram presentes na quinta coletiva de imprensa da Assembleia Geral, o cardeal Jaime Spengler, arcebispo de Porto Alegre, presidente da CNBB e do CELAM, dom Wellington de Queiroz Vieira, bispo de Cristalândia- TO e presidente da Comissão Especial para a Tutela de Menores e Adultos Vulneráveis da CNBB, e também a Irmã Maria do Desterro, presidente da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB), responsável por coordenar o núcleo Lux Mundi.
Dom Jaime iniciou sua fala destacando que esta é uma questão que exige um trabalho de transparência e humildade, reconhecendo também que este não é um problema novo, mas é um problema urgente.
“É verdade que, mais ou menos há 25 anos, esse tema tem surgido de uma forma bastante forte em vários ambientes. Também é verdade que se faz um trabalho, ou se está desenvolvendo um trabalho em vista não só da proteção comunal, mas também da consciência social e eclesial em torno dessa questão, precisamos trabalhar a questão da prevenção”.
Dom Wellington deu continuidade à fala do presidente da CNBB, afirmando que a Igreja tem olhado atentamente para esse tema e buscado contribuir para o combate aos abusos.
“Os abusos sexuais são sempre uma tragédia, seja em ambiente eclesial ou fora. A pessoa abusada sexualmente carrega marcas por toda a vida. […] E a Igreja Católica tem olhado esse tema com uma extrema preocupação. Às vezes as pessoas pensam que nós estamos preocupados somente com o nosso ambiente eclesial, sim, nós estamos preocupados com o nosso ambiente eclesial. Ali nós podemos legislar, nós podemos definir políticas de proteção, nós podemos definir protocolos de ações. Mas a Igreja reconhece que o problema é muito mais amplo, então é um trabalho, é um desafio que a CNBB, as nossas dioceses, nossas igrejas particulares, têm e deverão ter sempre este horizonte: a proteção dos menores, a proteção dos vulneráveis”.
A contribuição de Papa Francisco nesta missão
Na coletiva, Irmã Maria do Desterro falou sobre a assinatura do Protocolo de Intenções entre a Pontifícia Comissão de Tutela de Menores, a CNBB e a Conferência dos Religiosos do Brasil; e destacou o chamado do saudoso Papa Francisco para a missão da Igreja no combate aos abusos de menores e vulneráveis.
“Providencialmente, hoje, quando celebramos o primeiro ano da Páscoa do Papa Francisco, ele quem nos convidou a abraçar essa causa. Nós hoje assinamos esse protocolo de intenções entre as nossas conferências e para lembrar que, de fato, esse tema é sempre uma ferida na nossa vida, na vida das nossas famílias e que também é algo que importa para toda a vida consagrada. Nós, como vida religiosa consagrada, há cinco anos estamos empenhados, através do Núcleo Lux Mundi, nessa procura e nessa busca para ajudar nossas comunidades, o Brasil todo, todas as congregações a enfrentar esse dilema que também nos atinge”.
Esta missão despertada por Papa Francisco é, sobretudo, de cuidado e promoção da vida.
“O Papa Francisco, como sabemos, é uma das pessoas que a gente imagina que só aparece a cada cem anos, pelo legado que ele nos deixou, pela inspiração e pelo protagonismo testemunhal dele, em todos os sentidos. O Papa Francisco nos deixou esse legado da promoção da vida, e quando ele dizia ‘todos, todos, todos’, ninguém pode ficar de fora, e nesse sentido, o testemunho dele tem nos acompanhado, sobretudo no sentido da promoção da vida”.
A Irmã ainda destacou que o Papa Leão XIV, quando disse que precisamos de uma “paz desarmante e desarmada”, ele deu continuidade a esse legado de Francisco. Ela explicou que a violência não vem somente com ações e agressões, mas também com palavras e a missão da Igreja está em cuidar de todos.
Protocolo de Intenções
Sobre o acordo assinado, o cardeal Dom Jaime Spengler explicou que ele reforça o compromisso e também amplia os horizontes das ações já realizadas pela Igreja no Brasil.
“A Igreja já vem desenvolvendo esse trabalho já há alguns anos entre nós e de uma forma muito incisiva. Eu creio que a maioria absoluta de nossas Dioceses no Brasil já estabeleceu suas comissões, estão desenvolvendo o trabalho não só no acolhimento de denúncias, mas também no aspecto da formação, da prevenção e o mesmo vale para a vida consagrada. O que nós hoje assinamos, eu diria que não estamos partindo do nada, existe um trabalho muito vigoroso sendo realizado em diferentes realidades eclesiais do nosso Brasil.”
A Igreja reafirma a missão de cuidado e proteção de menores e vulneráveis, mas é preciso reforçar que a missão e o fortalecimento das políticas de proteção são de todos.
Assista novamente à coletiva:
Fonte: CNBB, Vatican News e Portal A12





